"A Jornada da Bahia, em suas edições realizadas nos anos negros da ditadura militar, foi sempre um ponto de resistência do cinema documentário brasileiro, um local de encontro para importantes discussões. Posteriormente, ao abrir-se para América Latina, o Caribe e o mundo ibero-americano, ampliou sua importância. O esforço, sempre redobrado e retomado, de Guido Araujo em persistir e insistir em realizar, ano após ano, a Jornada da Bahia é uma demonstração, de um lado, de sua dedicação ao cinema documentário e, por outro lado, da incompreensão em geral das autoridades culturais do país que - até hoje - não se deram conta de quanto é importante criar condições perenes e estáveis para que a Jornada seja permanentemente realizada."

Sergio Muniz









"Começou em 1972, como Jornada Baiana, pioneirismo regional. Já em 1973 os vizinhos chamaram-na para ser a Jornada Nordestina. Não faltou um ano para o País abraçá-la como Jornada Brasileira. Dez anos mais, sua maioridade: outros países elevaram-na à Jornada Internacional de Cinema da Bahia, incluindo o vídeo. Revelou o "Cinema de Rua", propiciou o surgimento da Associação Brasileira de Documentaristas; enfrentou e acolheu os debates com liberdade; afrontou e esquivou-se da censura ditatorial; apresentou o cinema cubano ao Brasil e mostrou os esforços revolucionários dos africanos; acolheu a poesia dos filmes e a ternura das pessoas; assimilou e difundiu as idéias de grandes intelectuais que participaram da Jornada como Sucksdorff, Birri, Santiago Alvarez, Paulo Emílio, Almeida Salles, Joaquim Pedro, Fernando Cony Campos, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Pino Solanas, Paul Leduc, Jean Rouch, entre muitos outros, propiciou a reflexão cultural e o debate sobre as questões do cinema. Enfim, cumpriu e continua cumprindo seus propósitos nos limites de suas possibilidades.

Agora, em sua 27. edição, consolidada como mostra internacional, mantém-se como ´sui generis` entre os festivais de cinema do Brasil, por sua conotação eminentemente cultural aditada ao seu lema "Por um Mundo Mais Humano". Chegou o momento de reverenciá-la por manter-se viva e vigorosa por mais de um quarto de século, num país onde é comum o final melancólico de iniciativas culturais ainda em seus primeiros passos.

Tal façanha, isto é notório, foi possível em razão da energia e perseverança de Guido Araujo, a quem cabe, obviamente, os agradecimentos do cinema brasileiro e dos participantes deste evento. Chegou também o momento de clamar às instituições públicas e à iniciativa privada para que assumam, de forma mais consistente, a responsabilidade do futuro deste histórico evento, dando-lhe o merecido apoio para o seu desenvolvimento".


Rudá de Andrade





LINDA É A AMIZADE QUE NÃO FINDA

As letras e as palavras
desta lavra da Jornada
Jornada Internacional da Bahia

a Jornada é um momento de alegria
tensão e descoberta de talentos
invulgar
consagração de criativas invenções
do cinema

a Jornada é referência
o cinema autoral
e cinema de equipe

esteira estrada e pormenor
lugar maior onde se fez
o diálogo
da questão cinematográfica

luz para acender o valor humano
o futuro beberá na história da Jornada
criticando e aprendendo
abrindo os olhos na legível plenitude
de força que preservou a liberdade de criar

é reunião de criadores de cinema
rebelados e outros de seu limite confessado

aqui na Jornada se fez da imagem
indignação relato
vislumbre escolha e recusa

e aquela imagem convincente
viceja na emocionalidade
o cinema é o que introduz
a grande satisfação de análise
o cinema conduz ao convencimento
a Jornada faz o proveito da criação
verificando a seqüência de intenções

25 luzes estelares
salas de exibição
e bares
foram 25 anos
por onde escorreram a veloz imagem
do cinema e a vida recriada
nos roteiros
de múltiplos realizadores no corpo da luz
refletida na realidade destes povos criadores
abrigados na Jornada exibidora e corajosa
palatável sensorial política amiga
amiga do gênero humano

corte

vire a câmara para a cidade da Bahia
faceira irreverente e efervescente cidade do Salvador
Guido Araújo transcorre o catálogo das emoções
são todos os rumores o som e o silêncio
clamores algumas brigas
as falas da razão

a trama que as moviolas organizam e vigoram
indelével o fogo das discussões
ruminadas na gerações

o ninho de nascimento da Jornada
molhado no sonho e discernimento
a tradição intelectual do Cinema Baiano
terreiro iluminado de jornalistas
poetas e artistas boêmios
vingou a Jornada em seivas apropriadas

a Jornada começou baiana
foi baiana continua sendo
nordestina é claro que é
nacional fez vibrar e rejuvenescer
o cascalho o orvalho das lutas
exigidas para imprimir no celulóide
lavra das cabeças constantes
o dinamismo da criação fílmica abrasileirada
raro diamante espelhando as angústias
o amor e a floresta de desejos de persistir
batendo no corpo e alma de nossa gente
e de existir na cor sabor esperteza
na esperança vôos a se identificar
um povo crescendo na imagem corpórea
de nossa história
a Jornada cumpriu o seu papel de projetar
o produto destas imaginações suarentas
invenções e broncas costumeiras
denuncia o amargo de injustas ocorrências

crimes no campo crimes na floresta
cidades endurecidas e feridas
e a ternura das imagens de namoro

quando os frutos dulcificaram bem maduros
a Jornada abriu para o campo internacional
auge de convivência atenta a questões do mundo
é o que se vê é o que se apalpa da alma
universal

no convívio da Bahia festeira
aqui o sol os ventos na mangueiras e sapotis
o lastro das ruas caminhos de diversão
cada qual e o seu pedaço de delícia
conviver na Jornada e a premissa
ser humano
e a imagem da vida cinematografada
as noites de encontro no cinema
a flor do filme revelada

por aqui passou de todos
os ventos e mares

o encantador do cinema
é um ser de carne e osso
o vítreo reflexo de emoções
a porfia e a dissecação
o drama e o desafio
daqueles que acreditam
no cinema espetáculo e estandarte
do pensamento humano

a Jornada soprou arejante
a vida e o semblante
de brasileiros e andinos
argentinos e cubanos
a massa do sangue nordestino
europeus e africanos

raiou raiou a luz do projetor
olham muitos olhares
velhos moças rapazes
a beleza do cinema
decifrando os dilemas
remoendo emoções

a imagem não convencional
os vidros dos olhos enxergando
na panorâmica física e sensorial

filmes e vídeos projetados para o sabor
das ruas e largos
a imagem derrama a luz da compreensão
e discute se este mundo é melhor ou pior

andou a Jornada projetando caráter libertário
nos espelhos do Paraguaçu
naquela Cachoeira de memória e trilhos
libertários do Brasil
por onde o menino Antônio Frederico de Castro Alves
molhou o corpo todo cabeça e pés na poesia tropical
espiando o rio se alargar
sentindo o sofrimento dos negros
para se livrar
do cruento cativeiro

uma vez saiu da Bahia e deliciou o chão paraibano
a Jornada e imagens do deleite humano
de filmar e exibir
manteve-se o tanto de trato o cravo
da persistência democrática
e resistir

De vez no retorno afundou os pés
mais pungente no Corredor da Vitória
no Canela na reitoria da UFBA
irmã parceira congregadora destes mundos
que trazem para o cinema
o raio do olho crítico
e a cantiga solidária
ao homem e sua condição

a Jornada da Bahia
no quintal do Raso da Catarina
doce bar do príncipe maluco
o poeta Carlos Sampaio
é de branco linho que ele veste
e aboia na garganta do sertão
tangendo boiadas imaginárias
mulheres mulheres aqui tens
um coração da Bahia
e minha cavalaria

No centro nervoso da inteligência baiana
e no Terreiro de Jesus e de Clarindo
Pelourinho contagioso
a Jornada é medida e proveito

sanfoninha nordestina
concertina
berimbaus zabumbas e oboés
afinados clarinetes
e as batidas de maculelê
a festa se abre nas imaginações
rompe madrugadas
o prazer das alvoradas
e sensações do cinema

Cosme Alves Netto
fuma o seu Havana
qual o limite de um coração
amoroso?

Cosme arma a revolução estética
e social
o cinema é o adubo de seu sangue
em pé sentado na sala de debates
ele vive a projeção do cinema
o cinema forma e arte
o jeito que tem os povos de filmar
o ar das Jornadas lhe dá vida e sensações

Olinda e suas rugas de pedra
sonora cidade dos sinos
noiva do mar vestida de verde
marcada dos cortes das revoluções
manda dizer à Bahia da Jornada
que o mais acertado esmero
é preservar o tempero do Cinema Brasileiro
Pernambuco esteve firme com seus poetas
filmadores
exibindo na Jornada o super oito das festas
que o cinema embebedou
o filme de sua cultura frevo e maracatu
o vídeo da cultura popular em Caruaru

a Jornada exibiu Paraná Santa Catarina
Rio Grande do Sul
São Paulo compareceu
o Maranhão passou aqui
o Piauí de José Medeiros
o Espírito Santo aqui visto

a escola de cinema
da Universidade Federal Fluminense
o filme dos alunos
presente
consagrado

o documentário do Brasil
quase inteiro
o que produziu vídeo
e cinema
a Jornada exibiu
Minas Gerais
ganhou prêmio
e muito mais

disse Cosme repetindo Humberto Mauro
o cinema é cachoeira
preservação da imagem natureza
e a estética da paixão

nós estamos com o cinema real
enquadrando o que é possível averiguar
e fazer que o cinema subsista modelar
de plano suscetível de enxergar
a poesia da vida comum
a grande ânsia a consciência
de projetar a vida humana
para outro edifício patamar
de justiça e largueza
a Jornada tem ouvidos
a Jornada escuta a contradição
lê o novo e o mastigado pensamento
de renovar
não é ingênua sabe o que exibe
acredita que a vida é palavra de transformação

Paulo Emílio Salles Gomes
pensador granito do chão brasileiro
homem inteiro
tem a seiva de raízes consistentes
o Cinema Brasileiro é o alimento
vive na Jornada conduzindo o pensamento
da resistência o produto da igualdade
de direitos
a imagem construída em nossa terra
Paulo Emílio ama interminável
aragem cachoeira de idéias
barragem piscosa

a Jornada subindo colinas do tempo
25 vezes quebrando tapumes e barreiras
rompendo canseiras intricada incompreensão
tramas e danações
e chatíssima carência de verbas
está viva perdurável amiga
do cinema dos povos
iluminada na luz brava
do Cinema Brasileiro
confere o prêmio Glauber Rocha

Siri o inigualável Agnaldo Azevedo
verso limado do cinema esforçado
que a Jornada premiou
Gregório de Mattos Guerra
Ferrabrás contra ladrões da terra
que a boca do inferno nunca alisou
o Capeta Caribé anel de justa medida
que o cinema deu guarida
nos dedos da imaginação

a Jornada é pigmento de florações agrestes
lábio de poesia que o cinema procria
os títulos estão todos impressos
verso e reverso dos catálogos de cinema
façam o favor de consultar

Guido Araújo
almocreve motorneiro
comandante de veleiro
mestre de rijos saveiros
que transporta a carga sublime
da criação universal
engendrada na arte do cinema
baiano do exercício humano
lapidário do desejo de congregar
um jeito pessoal de mexer em computadores
nos meios de comunicação atuais
e trazer para a Jornada criaturas fenomenais
gente do cinema e audiovisuais
congregados na Bahia
cheirando o dendê da harmonia
mergulhados na alegria
que a Bahia tem pra dar
que se encarrega de acender o incenso
e oferecer o suco e o mel
a lua tem sua cantina
requebrado das morenas meninas
o quente olhar da afeição

a Alemanha a França amiga
por mais que diga
os países passaram por aqui
lembre o teu
eu lembro o meu
Ângelo Roberto
Latina América flor de afeto
orvalhada enaltecida na Jornada
no ICBA as discussões vigoraram
o prato servido nas Jornadas
sempre a humana camaradagem
e muitos amores aqui floraram

Portugal aqui está
aqui esteve
na palavra do poeta
a árvore cinematográfica
que a língua fez florir
diga o que sabe sentir
da amizade que une

o filme canadense
o filme de jovem diretor
da América do Sul

um deles que viajou no rio Solimões
por Letícia atravessou de barco a Amazônia
e chegou na Bahia para exibir na Jornada
o documentário fruto de sua grande viagem imaginosa
extensão geográfica e o corpo uniforme
que em cinema desaguou

aqui de ônibus chegou na Jornada
que sua alegria completa
foi exibir o cinema de sua terra
a pele acobreada
um índio conquistou o cinema
houve noite de prêmio e alegria
saudade no encerramento da Jornada

Fernando Coni Campos
bebe a poesia de Romano da Mãe D'Agua
o violeiro
Fernando da Jornada exímio desfrute
sua concepção intelectual
visão de um cinema pessoal
está marcada de força e verdade
Os Ladrões de Cinema
Mágico e Delegado
e tudo que do cinema fez legado

de prata lavrada
o Tatu tem 25 estradas
percorridas
símbolo da Jornada
símbolo da terra brasileira
da Jornada da Bahia
o Tatu na brincadeira de se enrolar
em películas gravadas em imagem de cinema
o Tatu Peba ecologíssimo
identificado na criação cinematográfica

ora ora essa terra foi filmada
exibida na Jornada
é bom cantar a embolada
do tatu bolinha
a câmera disparada
enquadrando a gente minha
brasileira

Olney São Paulo
do cinema de ciganos
do Forte de Adonias
e a Manhã Cinzenta
dos jovens revolucionários
o sertão do Jacuípe
e a Feira de Santana
e teu brasão

Alex Viany
Sol sobre a Lama
e a vida encravada
na história do cinema
prática amor e aventura
tudo que criou cheira a cinema
o poema de feirante e saveirista
conscientizado

Barravento que Glauber imortalizou
com o gênio da Bahia entrelaçado
essa história da Jornada bem expressa
é o hino de comunhão e liberdade

em homenagem ao cinema brasileiro
Nelson Pereira dos Santos
escolhe a sua locação
os seus técnicos e atores
ninguém trabalhou mais do que ele
por este cinema social poético e político
que Nelson fez para distinguir o Brasil
no universo intelectual do cinema
o povo brasileiro nos seus filmes
é diadema luz forte de um poema
magistral
que Nelson dedicou à concretude do cinema
universal

viva o cinema

cinema rebento de civilização moderna
o século vinte lava teus pés
narrador de guerras e da pantera
do egoísmo

Luiz Buñuel viu por onde trafegas
no bruto instinto destruidor
que a sociedade alimenta
egocêntrica discricionária
e viu o porte daquela flor
descampada
que redescobre o homem
e sua amada
cinema que faz o pássaro
escondido na memória
abrir o vôo da história
coletiva
e memória dos indivíduos
que o mundo sonegou
cinema criativo
cinema inflável
aos ventos de imaginação
poético instrumento
útil quando livre
isento de coação

o cinema revirou do homem e mulher
aquele pólen que produz o amor
viu os pés do ódio esmagando
registrou o malefício
o suplício dos seres condenados
e perseguidos

o mergulho do cinema
nos entulhos sociais

e o cinema trouxe contentamento
um alimento de distração
seres cantando
e comédias

o cinema é trapézio
condensa a emoção

cinema que alegrou matinês
as noites de cinema e namoro
cinema de soirees
diversão dos tempos modernos

o cinema é bom de se ver
compõe nas montanhas e lagos
no Brasil esteve na caatinga e favelas
onde existir o cinema é rastro do homem
nas cidades onde estiver o motivo
a força do argumento
de pequenos e grandes lugares

a história do antepassado
e vivos da atualidade
o cinema imprimiu o traço
que será o cinema futuro?

Rio de Janeiro e Cinemateca de São Paulo
que a Jornada congrega a essência de muitas lutas
o vale fértil da consciência e trabalho
que o grupo humano produziu para a Jornada
25 vezes consagrada ao impacto do cinema
a arte do século bem amada dos povos

são todos de uma lavra
que exigiu esforço maior
para realizar a Jornada de cada ano
a pequena equipe concentrada e desprendida
espalhando luz de uma jóia preferida

luz das águas da Baía de Todos os Santos
alegria rasgada que a cidade de Salvador
borrifa e nutre os encontros da Jornada
o cinema readquire função e cor
extravasar amor à vida
trabalhar a dor e regeneração
o andar de gerações e seus conflitos
a arte e os estilos próprios de viver

vermelha é a rosa
o cravo vermelho é
e o arco íris é o olhar
das crianças do futuro
que a imagem de bonança
da árvore humana brotará

bate bombo
toque clarim
que a orquestra da vida
se afina e vai tocar
na Jornada que se realiza
a Jornada que vai se realizar
Jornada Internacional da Bahia

Linda é a amizade que não finda

Emmanuel Cavalcanti
("Cavaca")
Olinda, agosto de 1998

 





Nada mais particular no Brasil do que a Jornada da Bahia.

Tem um tempero especial e um estilo todo familiar de organizar o festival. Ninguém tira o lugar da Jornada, fórum tradicional, trincheira sensacional num cenário de luzes, cores sons e sabores que marca a diferença fundamental e teima em dizer não ao ritmo avassalador do mundo global.

Trata-se de um Festival em permanente formação, tenaz, às vezes combatido - sempre com carinho - pela lenta cadência inerente ao próprio cinema baiano que como diria Edgar Navarro ,

"Tá-lento demais".

E precisa acelerar, pergunta-se ?

Certamente mas sem perder o pé na tradição.que produziu na terra do sol o cineasta mais atemporal do Brasil. Este ano tem "dupla Jornada" .

Longa jornada a este festival, patrimônio do cinema inter-iber-supra nacional.

Evoé

Joel Pizzini