XXXVI JORNADA INTERNACIONAL DE CINEMA DA BAHIA |
|
|
Local: Galeria do ICBA |
|
|
|
|
A exposição de 30 telas do artista plástico Trípoli Gaudenzi, algumas delas inéditas, deram o ponto de partida para uma série de discussões sobre um dos temas principais que permearão a XXXVI Jornada Internacional de Cinema da Bahia este ano: o centenário da morte de Euclides da Cunha. A inauguração a exposição de 04 a 20 de Setembro, na galeria do ICBA, das 9 as 18:30 horas, com entrada franca. Na sua abertura, aconteceu uma mesa redonda na qual o tema da morte do escritor de Os Sertões foi novamente debatido. Além do próprio, a mesa contou com presenças de Guido Araujo, Antônio Olavo (estudioso sobre Canudos), Manoel Neto (historiador e Pesquisador do CEEC/UNEB), Pola Ribeiro (cineasta e diretor-geral do IRDEB), José Raimundo (TV Globo) e Claude Santos (cineasta e fotógrafo). Legendas acompanham cada trabalho do artista, uma vez que esta exposição foi concebida para ter um caráter didático, não comercial. Os visitantes serão brindados também com projeções audiovisuais de fotografias e curtas abordando o universo euclidiano dos sertões da Bahia. As telas desta exposição reproduzem um trabalho narrativo do artista que conta a saga do povo de Canudos, seus personagens e as passagens principais do drama desse povo guiado por Antônio Conselheiro. Produzidas em acrílico, guache, aquarela, bico-de-pena, óleo, pastel e técnicas mistas, os apreciadores vão conferir um trabalho autêntico de um artista estudioso da história de Euclides da Cunha, esta exposiçao já passou por cidades como São Paulo, Berlim, Paris, Havana e Colônia. |
|
|
|
Médico, formado pela UFBA em 1963, Trípoli Gaudenzi desde meninote diz que seu maior problema sempre foi o desenho. Ele fala em “problema” porque foi por conta da sua habilidade em desenhar que sempre viveu na linha tênue entre a medicina e as artes. Médico recém formado, ele foi à França complementar seus estudos, mas o que mais fazia em Paris era visitar museus, freqüentar ateliers de artistas que conheceu por lá, viveu a vida de um aficionado por artes na Cidade Luz. Autodidata, abandonou o Curso Livre na UFBA por duas vezes: “Escola pra mim não influencia ninguém. Você aprende a técnica e passa a desenvolver aquela técnica na sua criatividade”. Nesta entrevista, Trípoli Gaudenzi fala de sua exposição Canudos – A Guerra deOs Sertões e da sua relação com a obra de Euclides da Cunha. Jornal da Jornada: Quantos quadros serão mostrados e qual será a temática da exposição? Tripoli Gaudenzi: É. A exposição inicialmente é completa com 120 quadros porque tem a ver com o layout do lugar que irá receber os quadros, as salas de exposição. No ICBA exibirei 30 dessas telas. A temática principal delas são os peregrinos, as rezadeiras de Canudos, a temática sobre o homem, muito mais do que a guerra em si, as batalhas ou cenas mais violentas de batalhas porque essas estão no Arquivo Público do Estado. JJ: Serão mostrados alguns quadros inéditos. TG: Ah, tem alguns quadros que são inéditos. Desses 30 que vão pra lá, tem uns seis, sete ou oito inéditos, que nunca foram mostrados. JJ: Vamos falar um pouco da sua relação com Canudos. Seu primeiro cartão de visita foi o livro de Euclides da Cunha? TG: Eu comecei lendo Os Sertões ainda muito jovem. Tive dificuldade porque o livro é muito forte, muito pesado. Porque Euclides o dividiu em três partes: a terra, o homem e a luta. Em geral, o pessoal só vê a luta e só escreve sobre a luta porque é a parte mais dramática, a mais vibrante. Mas acontece que é importante se conhecer também o que Euclides escreveu da terra e do homem. Porque me parece que ele preparou o livro como um roteiro cinematográfico. Eu tive essa visão cinematográfica nesse trabalho que fiz. JJ: E nos capítulos relacionados ao “homem”, o que o senhor observou? TG: Ele descreve o homem sertanejo que fala do sertanejo, o homem nordestino, as qualidades desse homem, as dificuldades desse homem, como ele faz essa descrição muito bonita, esse homem que consegue sobreviver num ambiente tão hostil. JJ: Como foi o trabalho histórico? TG: O trabalho histórico tem que ser grande porque a gente tem que reproduzir aqui, mais ou menos, aquilo que está dentro das características que são ditadas, senão você se perde um pouco no enquadramento da história. Você tem que tomar cuidado com armamentos, com as fardas, tem que tomar cuidado com tudo. É como um filme. JJ: Apesar dos profundos estudos sobre o tema, o senhor notou um erro técnico em um dos seus quadros. Como foi isso? TG: É verdade. O que me levou ao erro foi uma designação que eu considero estranha porque eu nunca descobri o porquê: se chamavam Hospitais de Sangue. Ora, ao chamar Hospital de Sangue, a primeira coisa que me veio à mente, mesmo eu sendo profissional da medicina, é um Hospital onde alguém vai tomar sangue! Um hospital de campanha, como se dizia, de sangue. Então, eu coloquei alguns feridos realmente recebendo alguns líquidos intravenosos, e tal. Mas depois eu fui estudar e vi que essa prática da medicação parenteral só foi introduzida depois de 1900. No Brasil, pelo menos, parece que não tinha chegado essa inovação médica. JJ: Então foi um erro de interpretação histórica? TG: Sim, foi. Agora, o Hospital de Sangue, esse nome me induziu ao erro. Porque se não tivesse esse nome “de Sangue” a gente jamais faria a introdução intravenosa. JJ: Sobre José Calazans. Pode-se dizer que ele foi tipo um guia, um guru para o senhor? TG: O professor José Calazans foi um farol, que ficou rodando sozinho na escuridão. Não havia navios para ele sinalizar. Mas era um guia para mim. Sabe por quê? Ele ficou sozinho trabalhando nessa tecla de Canudos, escrevendo, analisando e fazendo conferências pelo Brasil inteiro. Era um arado, pode-se dizer, desse tema tão esquecido pelo brasileiro. JJ: Como ele ajudou o senhor na elaboração desse trabalho? TG: Eu, quando terminei de fazer a sequência da parte final do cerco de Canudos, sabia, pela leitura histórica, que havia uma pequena estrada que cortava as serras que circundavam Canudos que era a estrada do Calumbi. E ali o exército não tinha conhecimento dessa estrada. Por ali entravam armas e água para Canudos, na fase final. Havia uma última possibilidade de fuga para os sobreviventes – Antônio Conselheiro já havia morrido há pouco tempo - mas aquela última saída iria ser fechada. E foi como realmente aconteceu. Na reunião que fizeram entre eles, que me pareceu que foi muito tensa, e cinematograficamente parece que seria uma sequência muito bonita de ser filmada, aquelas decisões, aquelas lutas, as muitas falas violentas de desespero, a uma situação limite da vida, pois a morte estava iminente. E então, liberaram todas as famílias que queriam ir embora, o lutador com seus familiares. E conta Euclides que pouquíssimos abandonaram Canudos naquela noite. Eu tinha certas dúvidas sobre o tipo daquela arrumação sobre líderes em volta de uma mesa com o lampião e tal, aí eu levei para o professor Calazans. Ele olhou e disse: “O cenário está ótimo, a exposição dos personagens está muito boa, agora eu estou achando que, pra quem estava sedento e faminto, cercados por todos os lados de soldados, com uma sede terrível, você colocou esse pessoal muito bem nutrido. Eu acho que você tem que emagrecer esse povo todo.” E aí, nós rimos muito... JJ: Como o senhor mesclou as técnicas de pintura para dramatizar sua obra? TG: No caso do projeto Canudos, por exemplo, uma das coisas que me preocupava era a possibilidade de monotonia do tema quando a exposição viesse a ser mostrada. Eu então, pra evitar isso, propositalmente, fiz dois trabalhos em diferentes tamanhos de papel e também variei propositalmente a técnica. Algumas passagens de Canudos, por exemplo, eu utilizo cores. Uso aquarela, quando quero uma coisa mais fluida. Quando eu quero um desenho tipo cartaz eu prefiro guache. Quando eu quero uma coisa mais delicada eu prefiro bico de pena. Quando eu quero uma passagem rápida e com movimento rápido eu uso o pincel de nanquim, ou então, quando eu quero uma cena dramática ao extremo eu uso preto e branco só, ou pincel ou bico de pena, porém, sem nenhuma cor. Dá um efeito trágico... |